Em atendimento ao exorcismo dos meus demônios, vou iniciar por um fato, que não foi único, mas foi marcante, que ao ser abordado, originou a necessidade desta escrita, que por si, se fará entender ao longo das seguintes letras organizadas em palavras.
Caro Sr. N,
Eu poderia iniciar esta carta lhe chamando por vários adjetivos: apreciável, majestoso, onipotente, onipresente, demagogo, incrível, the best, colossal, Oxalá... mas nenhum destes adjetivos lhe descreve melhor do que caro. Que fique registrado desde já, que o senhor, pra mim é caríssimo, pessoa de muito apreço e pela qual eu tenho um respeito enorme e uma consideração única.
Nos conhecemos em meados de 2004. Eu fui trabalhar no seu escritório por indicação da Aninha, minha então colega de faculdade. Desde o primeiro dia em que lhe vi, senti uma admiração incomum. O senhor já tinha seus sessenta e poucos anos e apresentava um misto de jovialidade com experiência muito intrigantes, quase um pai, mas não, não sou carente de pai, então não era o caso. Trabalhei por três anos e meio contigo e aprendi muita coisa, entre legislações, entendimentos, macetes e entendimento da vida, senti que aprendi muito contigo. Nó dois fazíamos uma dupla muito boa. O senhor me dava o desafio e eu corria atrás do resultado. E conseguia. Mesmo sabendo do ciúmes que sua finada esposa tinha de mim, nunca deixei que as influencias de outras pessoas abalassem a incrível amizade que eu sentia por pelo senhor.
No início de 2008, eu entendi que queria alçar vôos mais altos e decidi ir trabalhar em uma indústria. Me desliguei da empresa, saindo pela porta da frente, carregando comigo muito orgulho e segurança em tudo o que eu havia aprendido. Trabalhei nesta indústria por outros três anos e meio e foi quando o senhor me fez uma proposta para voltar a trabalhar no seu escritório, desta vez com um cargo de confiança, com muita responsabilidade, me daria apoio e carta branca para as decisões. Nesta época, estamos falando do ano de 2011.
Confesso aqui, que quando eu cheguei para trabalhar no primeiro dia, lembrei exatamente do real motivo que tinha feito eu sair daquele trabalho. A forma com a qual o escritório mantinha as suas relações com os empregados, a postura da sua segunda esposa e novamente uma nuvem de ciúmes.
Cheguei para assumir o cargo de coordenadora da área. Um área antes coordenada por três pessoas. Destas três pessoas, apenas uma me aceitou. As outras duas fizeram questão de deixar claro a rejeição que sentiam por mim. Além de não me aceitarem, ainda faziam questão de me desqualificarem na frente da equipe. Eu era imatura nesta época e não sabia muito bem como lidar com aquele tipo de ser humano, o que passou a me deixar desprotegida e muito vulnerável a tudo o que acontecesse no ambiente.
Passei a ter cada vez mais crises de ansiedade, crises de choro (que tenho até hoje) e foi tudo cada vez mais descendo ladeira abaixo. Ocorre que foi um combinado feito entre o senhor, então dono do escritório e estas duas pessoas que me rejeitaram que resultou em uma das maiores humilhações que eu já passei na minha vida. O senhor combinou com estas duas pessoas que anotassem cada falha minha, cada deslize, cada coisa que contrariassem eles.
Feito isso, numa tarde o senhor me chama na sala de reuniões, aonde estavam o senhor e as duas pessoas e iniciou a reunião falando deste combinado. O resultado foi uma acariação aonde só haviam acusações, sem direito de defesa. Não fui preparada para aquela situação. Eu não sabia o que me esperava e então, eu desmoronei. Conforme as acusações, e mal entendidos iam sendo citados, eu ia tombando. Me senti desamparada, desassistida, sozinha, exposta, humilhada. Depois disso, nada mais fez sentido. Um tempo depois, eu fui demitida, classificada como uma pessoa inábil para tratar com pessoas e esta demissão eu tenho aboluta certeza que foi por insistência da Sra. I.
Eu nunca esqueci. Eu ainda choro e sinto aquelas palavras, a rejeição daquelas pessoas, a humilhação que eu passei e principalmente, a falta de apoio da pessoa que eu mais admirava profissionalmente na vida. Eu não sei sei isso vai passar um dia, mas eu espero que num futuro eu possa tirar alguma coisa de aprendizado.
Por muitas vezes, eu fazia questão de lhe enviar e-mails de felicitações partidos do meu endereço profissional, somente para que o senhor soubesse que sim, que eu era boa e que eu tinha condições de ser chefe. Hoje, eu continuo gostando do senhor, admirando o profissional que o senhor é, continuo lhe felicitando no seu aniversário e no natal. No seu último aniversário, eu sei que fui a primeira pessoa a lhe desejar feliz aniversário e sim, foi de propósito.
Para finalizar esta carta eu deveria escrever sobre o que eu faria se eu voltasse ao escritório, mas eu acho que eu não conseguiria voltar, sem sentir todos esses gatilhos. Eu também poderia lher dizer sobre o que eu faria, se fosse demitida. Mas opto por não escrever nada, pois eu não sei o que eu faria. O que eu sei é que sinto um misto de mágoa, tristeza e carinho. Não consigo não gostar do senhor. Mas não consigo esquecer o que o senhor ajudou a fazer comigo.
Com carinho,
Bulldozer
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